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Por Ana Claudia de Souza Andrade e Laura Helena França de Barros Bittencourt

Castração convencional e pediátrica em felinos: revisão de literatura

Veja observações detalhadas das duas modalidades de castração, que vão te ajudar a orientar da melhor forma possível, o tutor de gato

Testículos de um gato macho após cirurgia - Foto:IstockPhoto/ YJPTO

Ganho de peso está relacionado à queda de metabolismo dos pets castrados e pode ser controlado com dieta e exercícios

A forma mais eficaz do controle populacional de cães e gatos é sem dúvida a castração.

Feita de forma precoce há décadas em outros países, no Brasil essa prática vem sendo utilizada há pouco tempo, sendo por isso ainda pouco utilizada entre os médicos veterinários de várias partes do nosso país. Questiona-se desde os benefícios e malefícios que possivelmente a castração precoce pode trazer, quanto quão precocemente ela pode e deve ser feita. O que tem gerado atualmente um crescente interesse nessa modalidade de castração, tanto por parte dos profissionais, quanto por parte dos proprietários de animais, e com isso uma busca por informações e artigos científicos que versem sobre tal tema.

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Castração convencional e castração precoce

Atualmente temos disponíveis três métodos contraceptivos eficazes: imunológico, farmacológico e cirúrgico. Sendo que os mais utilizados no Brasil são os dois últimos. (TAMANHO et al, 2009; MACEDO, 2011).
Os métodos cirúrgicos de ovariosalpingohisterectomia (OSH) para fêmeas e orquiectomia total (OQ) para machos, são os mais usados para controle populacional de cães e gatos, levando à esterilidade e infertilidade permanente, através de alterações anatômicas obtidas com a cirurgia (MACEDO, 2011). Além do controle populacional, principalmente no que diz respeito aos felinos domésticos, a diminuição ou supressão da libido, diminui também as brigas entre machos procurando fêmeas, mordeduras e arranhaduras no momento da cópula, o que auxilia também no controle de disseminação de algumas doenças. (SANTOS et al, 2009). Na OQ, diferente da vasectomia, os machos perdem progressivamente a libido.
Segundo KENDALL (1979) em se tratando apenas de controle populacional, em gatos, indica-se a vasectomia como melhor opção. Isso ocorre pelo fato de estudos mostrarem que gatos castrados podem ter uma diminuição do diâmetro uretral pós-castração, o que pode levar à doença do trato urinário inferior.
Com relação às fêmeas, a OSH pode ser feita da forma tradicional, pela linha alba, com acesso pelo flanco ou laparoscópica. Seja qual delas for à de eleição, todas são seguras e eficientes. Porém, como em todo procedimento cirúrgico, necessita de um cirurgião habilitado para efetivá-la. Mesmo assim, pode apresentar complicações. No caso da OQ ou vasectomia, as complicações cirúrgicas mais comumente observadas são: dor pós-operatória, inchaços, hemorragias e infecções secundárias. (OLIVEIRA, 2006; MACEDO, 2011).

A castração precoce, também chamada de pré-pubescente ou pediátrica, é aquela realizada antes do primeiro cio das cadelas e gatas ou então, no caso de machos, antes do primeiro semestre de vida (KUSTRITZ, 2007). Esta modalidade de castração surgiu nos Estados Unidos da América, há cerca de trinta anos, como uma solução à superlotação de cães e gatos nos abrigos de animais, sem que tivessem que encaminhá-los à eutanásia. A adoção desse procedimento por parte dos abrigos de animais, fez com que posteriormente a normativa da castração precoce se tornasse lei naquele país (KISLAK, 1998).

Esta prática tem colhido resultados positivos e tem-se observado vantagens ante a castração no tempo convencional, pois quanto mais jovens os animais, menor é o índice de complicações cirúrgicas e pós cirúrgicas, além de terem uma melhor e mais rápida recuperação da cirurgia (MACEDO, 2011).

Estudos realizados nos Estados Unidos da América, comparando castração precoce e castração convencional, ao longo de 8 anos e avaliando 99.600 (noventa e nove mil e seiscentos) cães e gatos, revelou que há a mesma incidência de complicações físicas e comportamentais, tanto aos castrados precocemente quanto aos castrados a tempo convencional (LIEBERMAN, 1987). Reforçando este estudo, há dois artigos publicados no jornal American Veterinary Medical Association (AVMA), de autoria de Scarlett e Houpt (2004), em que foram estudados 3.442 animais entre cães e gatos, submetidos à castração precoce, para se avaliar a melhor idade para este procedimento, chegando-se à conclusão de que mesmo havendo riscos, os benefícios os superam, afirmando então que veterinários podem seguramente aconselhar os abrigos de animais e seus clientes a castrar precocemente seus animais.

Segundo Macedo (2011), seja qual for a modalidade eleita para a castração de cães ou gatos, elas podem trazer desvantagens e vantagens, as principais estão listadas a seguir:

1.Obesidade

  

Ganho de peso está relacionado à queda de metabolismo dos pets
castrados e pode ser controlado com dieta e exercícios
– Foto:IstockPhoto/Ablokhin

 

Segundo Macedo (2011) um estudo realizado no Reino Unido demonstrou que cadelas castradas seriam duas vezes mais propensas a ganhar peso que as não castradas, mesmo consumindo quantidades de alimentos iguais. Já Rand (2008) diz que o ganho de peso, independe da época da castração, está de fato relacionado com a queda de metabolismo dos animais castrados, mas que pode ser controlada com dieta e atividade física.

2.Retardo no crescimento

A castração precoce atrasa o fechamento das epífises ósseas, estendendo o crescimento, principalmente ulnar e radial, fazendo com que o animal permaneça por mais tempo em fase de crescimento, tornando alguns animais inclusive maiores do que seriam se não fossem castrados. Isso é muito mais observado em cães que em gatos (RAND, 2008).

3.Cistite

Estudos demonstram que há uma relação com a idade de castração e cistite, principalmente em cadelas castradas precocemente (KUSTRITZ, 2007).
De acordo com Rand (2008) este é o problema mais comum encontrado em animais castrados, com uma grande incidência ocorrendo em gatos castrados em idade convencional. Não há relatos dessa observação em gatas.

4.Obstrução Urinária

Muitos veterinários demonstram preocupação de que a incidência de doença do trato urinário inferior felinos (feline lower urinary diase – flutd) e obstrução da uretra de gatos machos poderiam estar relacionados à castração precoce. Porém estudos realizados com gatos castrados precocemente, gatos castrados ao tempo convencional e gatos sem castrar, verificaram que não há diferença no diâmetro da uretra dos gatos castrados (independente da idade de castração) com gatos intactos (KUSTRITZ, 2007 e RAND, 2008).

Segundo Rand (2008), estudo realizado por Howe et al (2000), utilizando como fonte de pesquisa 263 gatos, demonstrou que gatos castrados após 5,5 meses têm maiores problemas relacionados ao trato urinário em comparação a gatos castrados precocemente. Um estudo mais recente, com 1660 (mil seiscentos e sessenta) gatos, acompanhados por um período de quarenta e sete meses concluiu que não houve relação da obstrução uretral com a idade de castração (SPAIN et al, 2004).

5.Neoplasias e tumores

A redução de neoplasias testicular e ovarianas é um dos benefícios da castração,independente do tempo em que ela ocorra (RAND, 2008).

De acordo com HAUGHIE (2001) a castração não somente previne nascimento de filhotes indesejados, mas reduz o risco de desordens reprodutivas e neoplasias de mamas. Além disso, há um decréscimo no risco de cadelas castradas precocemente desenvolverem tumores mamários. Se castradas antes do seu primeiro estro o risco de desenvolvimento de neoplasia mamária em cadelas é de 0,5%, mas este índice torna-se cada vez menos benéfico conforme aumenta-se a idade (RAND, 2008 e SANTOS, 2009). Sendo que segundo Santos (2009) este índice é ainda melhor para gatas, cujos índices são de 0,06%.

6.Piometra

Na Suécia, a esterilização é bastante incomum, por este motivo, Sanborn, (2007) relata que estudos demonstram que 23% (vinte e três por cento) de todas as cadelas fêmeas desenvolveram piometra antes dos três anos de idade. Mas alerta que raramente cadelas castradas podem também desenvolver piometra de coto, relacionada à remoção incompleta de útero.

Kustritz (2007)diz que a incidência de piometra em cachorros e gatos nos Estados Unidos não foi relatada, provavelmente devido a prevalência de castração nessas espécies antes de alcançarem a idade que estariam mais predisponentes a desenvolver piometra.

 

Útero de gata com piometra – Foto: Arquivo pessoal

7.FIV e FeLV

FIV (Vírus da Imunodeficiência Felina) e FeLV (Vírus da Leucemia Felina) são retrovírus distribuídos mundialmente e com grande incidência principalmente em gatos que costumam ter acesso à rua. A transmissão da FIV dá-se principalmente por meio de mordeduras, mucosas e saliva de gatos infectados. Já a FeLV é transmitida pela saliva e também pela placenta ou leite. É comum que gatos que sejam infectados por ambos os vírus, mas podem estar infectados apenas por um deles (CHANDLER, 2006). Gatos castrados por não terem mais seus instintos sexuais ou os terem de forma diminuída, acabam não buscando fêmeas para acasalarem, evitando dessa forma o envolvimento em brigas por territórios e pelas fêmeas, o que diminui lesões por mordidas e arranhões de outros gatos e das próprias fêmeas, no momento do acasalamento. Sabe-se que com isso a incidência de FIV e FeLV são diminuídas (HAUGHIE, 2001).

CONCLUSÃO

Nesta revisão objetivou-se fazer uma observação um pouco mais detalhada das duas modalidades de castração, no que se refere à idade dos animais: convencional e precoce. Isso porque ainda existe muita resistência por parte de profissionais e proprietários quando se aconselha a castração ainda antes do primeiro estro ou até os seis meses de idade, de cães e gatos.

A obrigação do médico veterinário é de melhor informar seus clientes, pois há muitos estudos e pesquisas nessa área que demonstram os benefícios da castração precoce.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AVMA – Journalof The American Veterinary Medica Association. Vol. 217, No. 11.December, 2000.

CHANDLER, E. A.; GASKELL, C. J.; GASKELL, R. M. Clínica e Terapêutica em Felinos. Cap. 23 e 24, 3ª. Edição, Ed. Roca, São Paulo, 2006.

GONÇALVES, A. C. O. Estudo Comparativo Entre a Laparotomia Mediana Ventral e Lateral Direita Para a Ovariosalpingohisterectomia em Cadelas Pré Púberes e Adultas. TCC (Graduação em Medicina Veterinária da Universidade Estadual da Bahia), Salvador, 2007.

HAUGHIE, A. Early-Age Neutering – A Veterinary Perspective Concentrading on Cats (With Some Reference to Dogs). World Society for the Protection of Animals.London, 2001.

HOWE, L. M. Rebuttal to “Early Spay-Neuter Considerations for the Canine Athlete”.College of Vet Med and Biom Sciences.Texas, 2008.

KENDALL,T. R. Cat Population Control: VasectomizeDominant Males.Calif Vet v.33,p.9 – 12,1979.

KISLAK, P. Early-Age Spay/Neuter. Veterinary Medical Association Journal of Israel,1998.

KUSTRITZ, M. V. R. Determining the Optimal Age for Gonadectomy of Dogs and Cats. JVMA, Vol. 231, No. 11, December 1, 2007.

LIEBERMAN, L. L. A Case For Neutering Pups And Kittens at Two Months of Age.

  1. Am. Vet. Association, 191:518, 1987.

MACEDO, J.B. Castração Precoce em Pequenos Animais: Prós e Contras. TCC (Pós Graduação em Clínica Medica e Cirúrgica de Pequenos Animais, da Universidade Castelo Branco), Goiânia, 2011.

OLIVEIRA, E.C.S. Esterilização de Cães Com Injeção Intra-Testicular de Solução à Base de Zinco. Tese de Doutorado em Ciência Animal – Escolade Veterinária, Universidade Federal de MinasGerais – Belo Horizonte, MG, 2006

RAND, J.; CORINE, H. Report on the Validity and Usefulness of Early Age Desenxing in Dogs and Cats.Department Of Primary Industries & Fisheries.Brisbrane – Australia, 2008.

SANBORN, L. J. Long-Term Health Risks and Benefits Associated with Spay/Neuter in Dogs. Animal Siences – RutgersUniversity. New Brunswick, NJ, 2007.

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  1. O.; SOUSA, A. B. Anestesia Intraperitoneal com Tiopental em Gatos. Revista Portuguesa de CiênciasVeterinárias, 2010.

SPAIN, C.; SCARLETT, J. M.; HOUPT, K. A. Long Term Risks and Benefits of Early Age Gonadectomy in Cats.Journal of the American Veterinarry Medical Association, 2004.

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TAMANHO, R. B.; OLESKOVICZ, N.; MORAES, A. N.; FLÔRES, F. N.;

DALLABRIDA, REGALIN, D.; CARNEIRO, R.; PACHECO, A. D.; ROSA, A.

C.Anestesia Epidural Cranial Com Lidocaína e Morfina Para Campanha de Castração em Cães. Revista Ciência Rural – Santa Maria, RS, 2009

Ana Cláudia de Souza Andrade

Prof. de Doenças Infecciosas da Univel e de Medicina Felina na pós-graduação da Unipar. Proprietária da Di Gatto Clínica Veterinária de Felinos, de Cascavel-PR, criadora de felinos pelo gatil Legato e presidente da Allegro Cat Club.

Laura Helena França de Barros Bittencourt

Orientadora de Ana Cláudia Andrade (em 2017). Prof. de Parasitologia e Doenças Parasitárias na Faculdade Assis Gurgacz. Possui Doutorado em Ciência Animal pela Universidade Estadual de Londrina.  {PAYWALL_FIM}