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Por Isabelle Christine Bergamo, Suellen Rodrigues Maia, Leandro Zuccolotto Crivellenti

Gatos e bebedouros: Uma relação que vai além da necessidade fisiológica

Foto: IstockPhoto/herraez

A ingestatão hídrica é uma necessidade básica de todo ser vivo e garante a homeostase do organismo através do balanço de ganhos e perdas de líquidos. Embora seja óbvio que o consumo de água se trate de uma condição vital, existe uma relação intrínseca nesse hábito que vai muito além da necessidade fisiológica quando o foco concerne a espécie felina.

Sabe-se que o período evolutivo foi marcado pela seleção natural das espécies, onde as adaptações ao meio foram essenciais para a sobrevivência. Dessa forma, felinos selvagens são animais que se desenvolveram em ambientes desérticos e adquiriram mecanismos adequados para manter o status hídrico, entre os quais destaca-se uma maior tolerância a perda de fluidos em conjunto com a capacidade de produzir urina maximamente concentrada. Descendendo destes, no gato doméstico, tais adaptações também estão presentes, porém seu ambiente e condições de vida são completamente diferentes dos seus antecessores, assim como, sua longevidade, o que pode impactar na predisposição à distúrbios patológicos, principalmente nefro-urológicos.

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Ambientes fechados, atividade física reduzida e o fornecimento de alimento com pouca umidade figuram as principais mudanças que a domesticação promoveu, e neste cenário, as modificações evolutivas envolvendo a ingestão de água e a densidade urinária merecem atenção redobrada. 

Necessidade hídrica

Fisiologicamente a quantidade adequada de ingestão hídrica para gatos é em torno de 45 mL/kg/dia, e essa necessidade pode ser atingida tanto pela ingestão de água direta, como pela ingestão indireta de água obtida através de alimentos. Felinos são caçadores naturais e sua alimentação nestas condições envolvem presas (pássaros e pequenos mamíferos) que fornecem, do ponto de vista biológico, de 70 a 80% de umidade, o que, a depender da quantidade ingerida, pode suprir a totalidade do requisito diário de água necessário. No entanto, este hábito alimentar natural não é a realidade dos gatos domésticos, ao contrário disso, tutores habitualmente oferecem dietas extremamente secas, comercialmente disponíveis, que não ultrapassam cerca de 10% de umidade, ou seja, o consumo voluntário de água se torna uma obrigatoriedade para que esses animais possam atingir suas necessidades fisiológicas.

Neste contexto, tanto envolvendo as mudanças adaptativas quanto aos hábitos domiciliares, estimular a ingestão espontânea de água para a espécie em questão beneficia tanto pacientes hígidos, que a depender da intensidade da concentração urinária, podem estar predispostos a condições de urolitíases (alimentação) e cistite idiopática felina (estresse), como aqueles que já padeçam de enfermidades que propendam a desidratação. No entanto, atingir essa pretensão é um desafio, e pesquisas científicas objetivam fornecer alternativas, ou esclarecer as já existentes, que possibilitem promover ou comprovar, respectivamente, o aumento do consumo hídrico por esses animais.

Dentre os estudos disponíveis, algumas estratégias para aumentar a ingestão de água já descritas, destacam-se o fornecimento do alimento úmido e mudanças no fornecimento direto de água de acordo com a preferência dos felinos. Segundo estudos recentes o tamanho e o tipo de recipiente, assim como a quantidade e o local onde são dispostos, e a dinâmica da água (fontes d’água), podem influenciar no comportamento de ingestão hídrica nessa espécie. No entanto, algumas publicações são tendenciosas e baseadas na visão do tutor, sendo esta uma opinião individual do mesmo, o que torna esse tipo de avaliação pouco confiável. Dessa forma, é importante ter uma visão crítica sobre o assunto e baseada em estudos sob mudança na densidade urinária e aumento da ingestão hídrica.

Comprovação científica

A despeito da natureza curiosa dos gatos, a movimentação da água a partir de fontes, com diferentes quedas d’água, figura como estratégia atrativa para o incremento da ingestão hídrica, porém, não há estudos cegos que comprovem esta hipótese e o comportamento desses animais frente a uma nova condição ambiental e na sua rotina, inclusive como se comportariam caso convivam em grupo ou solitário.

Atualmente, pesquisadores, dentre eles os autores deste manuscrito, conduzem um estudo financiado pela Fundação de Amparo a Pesquisa (FAPESP) que visa esclarecer essa problemática, e realmente definir se há preferências e como os felinos se comportam frente a recipientes convencionais e com diferentes quedas d’água. O estudo é conduzido com os animais em suas residências para que ocorra o mínimo de influência externa na sua rotina e dessa maneira, cause menor estresse frente a implementação de fontes d’água, assim câmeras provisórias monitoram todo o comportamento desses felinos, tanto próximos aos recipientes de água habituais quanto próximos aos recipientes com água em movimento. Dentre as moradias avaliadas há aquelas com um único animal, mas também há as que possuem mais de cinco felinos no mesmo ambiente.

Os tipos de bebedouros dinamizados em uso incluem recipientes com um ponto único de queda d’água, recipientes com queda d’água em forma de leque e recipiente sem queda d’água, porém com a água em movimento, e avalia-se a frequência em que os animais procuram o bebedouro, o tempo despendido durante a ingestão de água e o comportamento individual e coletivo.

Resultados parciais demonstram que as fontes são recipientes atrativos, porém para ambientes que contenham mais de um felino, elas se tornam uma fonte de medo e estresse para aqueles que são medrosos e submissos. Nota-se que nesse tipo de ambiente a relação de dominância versus submissão se potencializa com a inclusão das fontes próximo aos bebedouros usuais, interferindo diretamente na forma como o felino submisso vive em seu grupo, seu comportamento desde a ingestão de água até alterações comportamentais, já que nestes casos, tais animais desenvolveram medo até mesmo da ingestão hídrica no seu recipiente de água habitual pela proximidade das fontes d’água.

Da mesma forma que em ambientes sem demais contactantes felinos, animais de temperamento medroso tendem a não optar pela fonte devido a sonoridade ruidosa que emitem e ao receio frente a um objeto desconhecido. Notou-se ainda que, quando inclusas no ambiente, as fontes preferíveis para este tipo de animal são as que não possuem queda d’água, sem, no entanto, superar a ingesta hídrica feita no recipiente convencional.

Dessa maneira, um fator que se observou importantíssimo, foi em relação ao comportamento singular dos felinos domésticos, e o quanto é fundamental o aperfeiçoamento do conhecimento frente seu comportamento para que discussões sobre maneiras e soluções eficazes sejam realizadas, e acarretem ao aumento da ingestão hídrica nessa espécie, sem que ocorra mudanças comportamentais e estresse ao ambiente.

Até o momento não houve evidências do aumento da ingestão de água nos animais em avaliação, porém o contrário ficou nítido nos gatos de vivência coletiva com temperamento medroso. O próximo passo é avaliar a densidade urinária desses animais e esclarecer se há repercussão desses resultados visuais no status hídrico propriamente dito.

A princípio, fica claro que, a inclusão de fontes de água não exclui a necessidade de recipientes habituais para a ingestão hídrica, devendo estes estarem dispostos em cômodos distintos daqueles que possuem as fontes e em número que supere a quantidade de felinos no ambiente. Além disso, uma nova evidência ao hábito de ingesta hídrica em gatos deve fazer parte das considerações, o comportamento coletivo também exerce influência sobre o mesmo, fazendo com que a relação: felinos x bebedouros, encontra-se mais longe de ser uma questão puramente fisiológica.

Agradecimentos

Os autores gostariam de agradecer à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo FAPESP nº 2016/12701-1) pelo fomento recebido.

Referências bibliográficas:

Buckley, C. M. F., Hawthorne, A., Colyer, A., & Stevenson, A. E. (2011). Effect of dietary water intake on urinary output, specific gravity and relative supersaturation for calcium oxalate and struvite in the cat. British Journal of Nutrition, 106(S1), S128–S130.

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Fritz, J., Handl, S. (2018). Nutrition matters. The water requirements and drinking habits of cats. Veterinary Focus Online, 28(3). Disponivel em: <https://vetfocus.royalcanin.com/en/doc-10.html> Acesso em:12/02/2020.

Grant, D. C. (2010). Effect of water source on intake and urine concentration in healthy cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, 12(6), 431–434.

Lund, H.S.; Krontveit, R.I.; Halvorsen, I.; Eggertsdóttir, A.V. (2013) Evaluation of urinalyses from untreated adult cats with lower urinary tract disease and healthy control cats: predictive abilities and clinical relevance. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 15, n. 12, p.1086-1097.

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Zanghi, B. M., Gerheart, L., & Gardner, C. L. (2018). Effects of a nutrient-enriched water on water intake and indices of hydration in healthy domestic cats fed a dry kibble diet. American Journal of Veterinary Research, 79(7), 733–744.

Isabelle Christine Bergamo

Isabelle Christine Bergamo

Médica-veterinária graduada pela Universidade de Franca – UNIFRAN (SP). Iniciação Científica pela FAPESP. Atualmente é pós-graduanda no Programa de Ciência Animal pela Universidade de Franca – UNIFRAN (SP) com ênfase em Nefrologia e Urologia Veterinária. Atuação na área de Clínica Médica de Pequenos Animais.

Suellen Rodrigues Maia

Suellen Rodrigues Maia

Médica-veterinária graduada pelo Centro Universitário Moura Lacerda (CUML/Ribeirão Preto - SP). Possui Residência em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Universidade de Franca (UNIFRAN/ Franca - SP) e Mestrado em Ciência Animal, com ênfase em Nefrologia e Urologia, pela mesma instituição. Atualmente é discente do curso de doutorado em Medicina Veterinária pela FMVZ-Unesp/Botucatu-SP, com ênfase em Nefrologia e Urologia. Atuação e experiência na área de Clínica Médica de Pequenos Animais, Nefrologia e Urologia.

leandro

Prof. Dr. Leandro Z. Crivellenti

Médico-veterinário graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Residência em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais pela Universidade de Franca (UNIFRAN). Mestrado em Medicina Veterinária pela UNESP, Jaboticabal. Doutorado em Medicina Veterinária pela UNESP, Jaboticabal, em conjunto com o Serviço de Patologia Renal da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP), e da The Ohio State University, Ohio, EUA. Pós-doutorado na área de Nefrologia com a participação das instituições UNESP, Jaboticabal; FMRP/USP e OSU (EUA). Atualmente é Professor do programa Pós-graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca (UNIFRAN). Diretor Científico do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária (CBNUV). Autor dos livros Caso de Rotina em Medicina Veterinária de Pequenos Animais, Bulário Médico-Veterinário Cães e Gatos, Casos de Rotina Cirúrgica em Medicina Veterinária de Pequenos Animais, BoolaVet livro e do software BoolaVet. Coordenador do grupo de pesquisa em Nefrologia e Urologia Veterinária credenciado pelo CNPq.

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