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Por Carla Regina G. R. Santos

Ureterolitíase e obstrução ureteral: um grande desafio na Medicina Felina

Diagnóstico, exames, gatos mais afetados entre outras considerações sobre essa afecção tão comum e perigosa na espécie felina

A presença de urólitos no trato urinário superior é uma afecção cada vez mais comum na rotina clínica da Medicina Felina. A presença de nefrolitíase deve ser cuidadosamente avaliada devido a suas complicações clínicas. O deslocamento de um ou mais cálculos pode levar a obstrução ureteral, condição que necessita de interverção clínica e ou cirúrgica emergencial pelo risco de doença renal irreversível, falência renal ou até mesmo a morte do paciente. Mais da metade dos gatos com nefrolitíase ou ureterolitíase já apresentam algum grau de doença renal crônica. Assim é difícil determinar se a doença renal é causa ou consequência desses cálculos. No entanto, podemos afirmar que a presença de cálculo no trato urinário superior contribui para progressão da doença renal. Em gatos, o cálculo de oxalato de cálcio representa até 98% dos casos, sendo assim o tipo mais frequente é formado no trato urinário superior. Um fator complicador em seu tratamento é que esse tipo de cálculo não pode ser dissolvido por manejo nutricional. Outros urólitos como de urato, xantina e até mesmo de coágulo solidificado já foram descritos em gatos.

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Grupo de risco

Os gatos podem apresentar cálculo renal e/ou ureteral unilateral ou bilateral. A característica anatômica do ureter favorece a sua obstrução. O diâmetro externo normal do ureter felino é de 1,0 mm, enquanto seu lúmen é de 0,4 mm. A luz do ureter está normalmente colabada, abrindo somente quando há fluxo de urina. Não há predisposição de sexo ou de raça ainda descrita na obstrução ureteral. Entretanto, as fêmeas representaram a maior parte dos casos em dois estudos. A idade média dos gatos acometidos é 8 anos, podendo variar de 2 a 16 anos, com relatos de gatos com 8 meses e 10 meses de vida. Os sinais clínicos presentes na obstrução ureteral são inespecíficos e geralmente associados a azotemia (Quadro 01).

Diagnóstico

O diagnóstico da obstrução ureteral é realizado principalmente através dos exames de ultrassonografia e radiografia abdominal. Esses exames fornecem informações sobre o tamanho e a morfologia dos rins, e identificam se o acometimento é unilateral ou bilateral.  Além disso, podem avaliar a presença, quantidade e localização dos cálculos ureterais e renais. Quando comparada à pielografia, exame sensível para o diagnóstico de obstrução ureteral, a ultrassonografia abdominal apresenta uma sensibilidade de 70%.

Na ultrassonografia, as principais alterações encontradas são a hidronefrose e o hidroureter, presentes em 100% dos gatos com obstrução ureteral. Outros achados ultrassonográficos são o diâmetro da pelve renal com valor médio de 11,5 mm (referência < 1mm), e o diâmetro ureteral proximal à lesão obstrutiva com valor médio de 3,5 mm (referência 0,3 a 0,4 mm). Através da radiografia abdominal, é possível determinar a região de obstrução no ureter. Em gatos, a obstrução ocorre principalmente nas regiões proximal e média do ureter (Figura 1).

Um achado ultrassonográfico adicional é a presença de tecido peri-ureteral hiperecoico na área de obstrução. Quando evidenciada essa alteração, a estenose ureteral deve ser considerada. A presença de uma estenose ureteral concomitante a urolitíase não é um achado incomum. Esta condição indica predisposição a formação de estenose em gatos. Especula se que a ureterolitíase pode induzir a injúria da mucosa ureteral que leva a estenose, ou que a presença da estenose ureteral leva ao decréscimo do fluxo urinário e assim predispõe a ureterolitíase. 

Humanos x gatos

Um paralelo no tratamento das nefrolitíases e ureterolitíases entre humanos e gatos ainda não é possível. Na medicina, a terapia médica expulsiva (TME) é a primeira opção para ureterolitíase não complicada para cálculos pequenos com excelentes resultados. E mesmo para os casos que necessitam de intervenção cirúrgica, os procedimentos endourológicos minimamente invasivos são empregados com sucesso e pouquíssimas complicações.

Na medicina veterinária a TME ainda é pouco empregada e há pouca descrição em literatura. Quando diagnosticados, nossos pacientes geralmente já apresentam alterações clínicas graves, o que dificulta a resposta à um tratamento conservador. Assim podemos enfatizar a importância da realização de exames de rotina e a prática de uma medicina preventiva na Veterinária. Procedimentos endourológicos têm sido empregados na espécie, mas ainda com limitações, principalmente pelo custo e tamanho dos pacientes. O tratamento de obstrução ureteral ainda é frustrante para muitos aqui no Brasil.  A condutas de tratamento para obstrução ureteral irá depender principalmente de dois fatores, a condição clínica do paciente no momento do diagnóstico e os recursos disponíveis. 

Quadro 01. Sinais e sintomas clínicos encontrados em gatos com obstrução ureteral em cinco estudos distintos.

Figura 1. Imagem radiográfica na posição lateral revela a presença de nefrolitíase bilateral e um cálculo ureteral na região média do ureter em um gato com obstrução ureteral.

Referências:

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Carla Regina G. R. Santos

Graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Fluminense. Pós Graduada em cirurgia de pequenos animais pela Universidade Castelo Branco. Mestre em Medicina Veterinária com ênfase em Felinos pela Universidade Federal Rural do rio de Janeiro (UFRRJ). Aluna de doutorado do Programa de Pós Graduação em Medicina Veterinária com ênfase em Felinos pela UFRRJ. Preceptora do Programa de Residência de Clínica Médica dos Gatos Domésticos da UFRRJ.

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